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5/7/2010

Gargalo chega ao setor de carga aérea

Fonte:
Gazeta do Povo - PR
Depois do estrangulamento do setor portuário, agora é a vez de os aeroportos sentirem os efeitos da falta de infraestrutura para o transporte de cargas. Os problemas são iguais aos dos portos: faltam áreas de armazenagem, instalações (câ­­maras refrigeradas) para produtos especiais e mão de obra suficiente para liberar as mercadorias dentro de padrões in­­ternacionais. O resultado tem sido a ampliação do tempo de desembaraço dos produtos im­­portados.

Há casos em que a mercadoria demora mais para ser liberada em território nacional do que para sair do país de origem, como a China, e chegar ao Brasil. “Esse problema prejudica não só o transporte aéreo, mas também a indústria, que perde velocidade na produção”, afirma o consultor do Sin­­dicato Nacional das Empre­­sas Aeroviárias (Snea), Alle­man­­der Pereira. Representan­tes do setor industrial temem que o problema se agrave ainda mais neste semestre, quando é esperado um aumento nas importações para atender ao Dia da Criança e ao Natal.

A luz amarela já acendeu em aeroportos, como os de Gua­­rulhos e Viracopos, em São Paulo, Confins, em Belo Hori­zon­­te, Salvador, na Bahia, e Manaus. Os primeiros sinais de estrangulamento surgiram em 2008, antes da crise mundial. Na época, alguns terminais já estavam operando acima da capacidade, conforme estudo feito da McKinsey&Company, a pedido do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O trabalho mos­­trou que, na área de importação, Viracopos trabalhava com 140% da capacidade. Em exportação, Confins atingiu 130% e Salvador, 113%. Guaru­lhos estava em nível bastante elevado, de 84% (importação) e 78% (exportação). Com o arrefecimento da economia, os ae­­roportos passaram bem pelo ano de 2009. Mas o alívio durou pouco. Desde o início do ano, o volume de importações, que cres­­ceu 41,5% até maio, tornou visível a fragilidade do trans­­porte aéreo.

Em Manaus, onde está localizado um dos maiores polos industriais do País, o problema chegou ao limite, diz o presidente do Sindicato das Indús­trias de Aparelhos Elétricos, Ele­­trônicos e Similares de Ma­­naus, Wilson Périco. Sem área suficiente para atender ao vo­­lume crescente, as mercadorias ficaram armazenadas no pátio, cobertas apenas por lo­­nas. Para piorar, o número de pessoas para registrar e liberar os produtos não foi suficiente. “As cargas demoraram até 18 dias para serem liberadas”, afir­­ma Périco.

Segundo ele, a estimativa é que as empresas tiveram pre­juí­­zo de US$ 650 milhões entre fevereiro e maio. O executivo afirma que o problema foi agra­­vado pela Copa do Mundo, que ampliou a produção de te­­vês. “Mas teremos problemas a partir de setembro, se a In­­fraero (que administra os aeroportos) não fizer investimento em um terminal de cargas.” A In­­fraero não respondeu ao pe­­dido de en­­trevista da reportagem.

Faltam áreas para construção - Um dos grandes problemas dos principais aeroportos do país é a restrição de áreas para construir novos terminais de carga. É o que ocorre em Guarulhos e em Brasília, afirma o vice-presidente Comercial e de Planejamento da TAM, Paulo Castello Branco. Ele explica que a empresa tenta há algum tempo construir um grande terminal em Guarulhos – local que ele considera já estar estrangulado –, mas está impedido por falta de espaço. “Preciso de duas áreas e só consegui uma. Estamos dispostos a investir na infraestrutura, mas precisamos ter condições”, lamenta o executivo. Castello Branco comenta que a mesma situação ocorre no aeroporto de Brasília, hub (principal centro de operação) da TAM no país. É a partir dali que a empresa faz toda a distribuição da carga. “Faltam áreas cobertas para abrigar as mercadorias. Falta espaço para operacionalizar a carga. Tudo isso reduz a nossa agilidade para escoar a carga.”

Em Guarulhos, aeroporto que concentra 54% de toda carga aérea movimentada no país, a situação não é diferente, afirma o presidente do Sindicato dos Despachantes Aduaneiros de São Paulo, Valdir Santos. Além de áreas de armazenagem, faltam câmaras refrigeradas para acomodar produtos perecíveis, vacinas e medicamentos. Embora o aeroporto conte com duas “geladeiras”, elas não têm dado conta da demanda, conta Santos. “Algumas empresas estão perdendo mercadorias porque ficam fora da geladeira.”

Outro problema é o fato de, dentro dessa câmara refrigerada, haver muita carga estragada, que não pode ser incinerada no local por causa de legislação ambiental. “Tem de tirar dali e levar para ou­­tro lugar. É uma burocracia grande. Enquanto isso, não há espaço para mercadoria nova.”

O presidente da Associação das Comissárias e Agentes de Carga de Minas Gerais (Codaca), Roger Rohlfs, conta que tem evitado fazer qualquer operação por Guarulhos por causa do risco de roubo da carga. “Prefiro gastar mais tempo e dinheiro e trazer algumas mercadorias por Con­fins. O gargalo já está instalado em Guarulhos”, diz ele. Santos também alerta para os problemas que podem surgir no segundo semestre. Em maio, por exemplo, Viracopos, em Campinas (SP), segundo maior em cargas, já bateu recorde de movimentação. “O que era para ocorrer no segundo semestre ocorreu no primeiro. Será um caos nos próximos meses.”

A falta de infraestrutura também virou incômodo para a indústria de Goiás. Na capital, o Aero­porto Santa Genoveva costuma armazenar os produtos no pátio, em barracas de lonas, diz o presidente do Sindicato da Indústria da Construção de Goiás, Roberto Elias. Para ele, o setor é um dos grandes gargalos do Estado e atrapalha bastante o polo farmoquímico da região, o terceiro maior do país. “Chega a ser pior que a nossa logística rodoviária.”

   
 
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